sábado, 20 de outubro de 2007

Incursões: Nacionalismo

"Só Visto", definido na íntegra como um programa televisivo de Domingo, transmitindo a partir da hora de almoço e destinado, com a sabedoria de quem faz televisão há meio século, a fazer chorar aqueles ou aquelas de lágrima fácil, os nostálgicos e os emotivos, que depressa atravessam a ponte entre o triste e o contente, o miserável e o feliz. Como programa de televisão que é, explicado como foi por esta descrição deveras sucinta mas perspicaz (se não é arrogância dizê-lo), não seria dono de nenhuma característica assinalável, tirando o facto de, pelas características que tem, existir (claramente outras conversas, outras deambulações, sobre as quais dificilmente me vejo a escrever). O que o torna, por ventura ou falta dela, especial, é a mensagem subliminar que transporta, as entrelinhas que, embora o sejam, são expostas com um alarido garrafal à frente dos olhos desprevenidos do ocasional espectador.
Uma mensagem simples e fácil de enxergar, mas que, por um lado remonta aos idos tempos da ditadura, e por outro, nos leva a pensar que talvez este governo, influência mais que directa (e muito menos que perfeita) na RTP, talvez este governo, dizia eu, não seja muito menos ditatorial do que a dita ditadura. Passo a explicar: por mera constatação, de modo algum assídua, mas nunca complacente, é fácil de reparar que grande parte dos programas são dedicados à selecção nacional de futebol, ou à de Rugby, ou ao Francis Obikwelu, ou à Vanessa Fernandes, Rui Silva, selecção nacional de basket, etc... O nome Cristiano Ronaldo é dito tantas vezes que já está a ficar gasto, devido ao uso.
Não quero ser mal interpretado. Grande parte dos desportistas convidados são grandes valores do desporto internacional, dos quais nos podemos orgulhar como modelo de virtude humana que são. Mas surge na minha mente como, de certo modo, ridículo, que se fale das razões pelas quais o seleccionador nacional benzeu um jogador que se tinha lesionado, ou da festa que os jogadores fizeram depois de ganharem ao Azerbaijão e ao Cazaquistão! Esses países mal têm dinheiro para pagar a bola com que jogam e nós fazemos um especial televisivo porque lhes ganhámos!
Televisão é televisão, e a última pessoa a saber fazê-la sou eu, mas o que eu penso disso tudo é simples: o Nacionalismo perdeu-se porque se banalizou o Nacionalismo. Glorificar tudo e mais alguma coisa pelo simples facto desse tudo ou dessa alguma coisa ser português não é ser nacionalista, é ser inconvenientemente extravagante. O Nacionalismo é um bem próprio dum povo, qualquer povo, e não deve ser esbanjado se se quer manter o seu profundo e importante significado.
Se pensarmos bem, todas as influências a que somos sujeitos são muito mais esmagadoras do que aquelas a que os nossos avós eram sujeitos em plena Segunda República. Os meios de difusão de mensagens deste ou doutro género qualquer multiplicaram-se nas últimas décadas vezes incontáveis e numa sociedade democrática exige-se do cidadão uma responsabilidade moral de ser crítico em relação ao valor próprio ou, neste caso, ao daqueles que consideramos próprios. Divulgue-se o desporto, transmita-se muito mais cultura e fale-se da política externa, interna ou assim assim, mas exalte-se aquilo que é de se exaltar, porque o que é certo é que exaltar tudo o que acontece não funciona. Na ditadura de Salazar exaltava-se o que se podia exaltar, não havia assim tanto com que ficar orgulhoso, mas hoje em dia não é assim. Hoje e amanhã é vital reconhecer a verdadeira importância das coisas, ou se não soubermos achar a verdadeira importância, pelo menos a mais verosímil.
Não me considero um português ingrato, muito menos traidor. Não confundam a minha preocupação com desprezo. Sou simplesmente um Europeu alarmado com a banalização do enorme valor histórico dum país extraordinariamente rico em Passado, que é a maior riqueza de todas. Orgulho-me muito de viver num país actual e que hoje, mais do que nunca, pode fazer a diferença no mundo e não o quero ver perdido para um governo que esfrega as mãos de contente enquanto todos pensarmos que o que interessa só a Nossa Senhora do Caravaggio nos pode dar.

Gonçalo Soares

terça-feira, 11 de setembro de 2007

A Razão

Chamaram a um amigo meu, há umas quantas semanas, de “palerma”. Vindo de quem foi (a saber, o meu avô) pode ser considerada uma opinião sincera e mais profunda do que a palavra utilizada, vulgarizada ao ponto de dificilmente poder ser considerada ofensiva, pode deixar transparecer. Sendo ainda para mais pouco habitual no meu avô tal expressão directa de sentimentos deste género, torna-se quase fundamental para quem este texto lê saber a razão. A razão de isto ter sucedido foi o facto do meu amigo não gostar de ler. Para o meu avô, e não para o meu amigo, a leitura é fundamental, a sua inexistência um amargo desapontamento.
Relatei este aparentemente inofensivo acontecimento porque a razão, simples de tão simplificada, deste blog, resulta justamente não só de ler, mas acima de tudo daquilo que se lê. A leitura tem, a meu ver, duas grandes virtudes distintas: por um lado, a virtude talvez mais apreciada e também a mais comum, espicaça como que com fogo o imaginário de cada um; por outro, e é aqui que nós, Os Iberos, entramos, a leitura é o meio privilegiado de informar e obter informação. Lendo o pouco que eu tenho lido de jornais portugueses (4 Públicos…), caiu dentro de mim o globalizante sentimento de que, antes de os ler, o meu mundo era praticamente estagnado. Usando uma comparação provavelmente demasiado ingénua, fiquei com a sensação de que os olhos com que eu via e vejo o mundo tinham parado de ver o lago parado que sempre haviam visto para ver o novo mar, picado, violento e feroz.
A cada letra que lia, a cada notícia que devorava com a ansiedade natural de passar à seguinte, sentia que a minha opinião, os meus sentidos, se alteravam um pouco, sofriam graduais e por vezes imperceptíveis alterações que, ao fim de cada jornal lido, faziam com que as minhas opiniões parecessem novas, nunca antes experimentadas. As minhas, total ou parcialmente, novas opiniões eram por vezes as esperadas, mas noutras vezes eram perfeitamente surpreendentes, sobretudo para mim mesmo. Não é que tenha lido jornais a minha vida toda, foram só 4 Públicos, mas o meu mundo revolucionou-se e acima de tudo, cresceu, explodiu as minhas fronteiras e criou novos horizontes, toscamente delineados por detrás minha profunda ignorância. Nunca é tarde para se ser “um europeu destes”, espero eu e possivelmente vocês. Haja vontade de o ser! Espero também poder adicionar muitos mais jornais ao meu ridículo registo, o que me leva, directamente, aos objectivos do blog.
O mundo que se revolve à nossa volta, à minha e à vossa, faz com que, num momento inesperado, sejamos confrontados com dilemas intrincados, éticas dúbias, às quais, em conjunto ou solitariamente, temos de fazer frente. Tentar percebê
-las, quero eu dizer e, se for caso disso, argumentar contra elas, apaixonados mas também sóbrios. Rejeitá-las terminantemente “à custa do anarquismo” não é uma opção para quem se conta entre “estes europeus” que não vivem só no Mundo, fazem-no.
Não esperem poemas, ou romances ou prosas tentando ser belas, embora por vezes “as saudades das viagens que não faremos” nos deixem sedentos da beleza do que ainda não vimos. Esperem, isso sim, sinceridade. Opiniões escritas e expressas na primeira pessoa, sem perguntas, sem interrupções, as letras como que faladas de uma mente para todas as outras. É isso a que me proponho, manter viva nesta geração de europeus “o desejo que não somos capazes de reprimir”, e é também isso que vos peço, leitores e possíveis cronistas (o Mundo não é só meu, claro). À nossa volta o mundo existe, realmente. A consciência, a moral e a opinião andam lado a lado com a ignorância e a apatia. Compete a cada um escolher as virtudes do mundo que prefere.
Espero, sinceramente, ver-vos por cá.


Manuel Melo , 11 de Setembro de 2007

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Os Iberos

Porém, se há desses europeus, também há europeus destes. A raça dos inquietos, fermento do diabo, não se extingue facilmente, por mais que se afadiguem os áugures em prognósticos. Ela é a que segue com os olhos o comboio que vai passando e entristece de saudade da viagem que não fará, ela é a que não pode ver um pássaro no céu sem experimentar um apetite de alciónico voo, ela é a que, ao sumir-se um barco no horizonte, arranca da alma um suspiro trémulo, pensou a amada que foi de estarem tão próximos, só ele sabia que é de se achar tão longe. Foi portanto uma dessas inconformes ou desassossegadas pessoas que pela primeira vez ousou escrever as palavras escandalosas, sinal duma perversão evidente, Nous aussi, nous sommes ibériques, escreveu-as num recanto de parede, a medo, como quem, não podendo ainda proclamar o seu desejo não aguenta mais escondê-lo. Por ter sido, como se pode ler, na língua francesa, julgar-se-á que foi em França, é caso para dizer, Pense cada um o que quiser, também podia ter sido na Bélgica ou no Luxemburgo. Esta declaração inauguradora alastrou rapidamente, apareceu nas fachadas dos grandes edifícios, nos frontões, no asfalto das ruas, nos corredores do metropolitano, nas pontes e viadutos, os europeus conservadores protestavam, Estes anarquistas são doidos, é sempre assim, leva-se tudo à conta do anarquismo.
Mas a frase saltou fronteiras, e depois de as ter saltado, verificou-se que afinal já aparecera também nos outros países, em alemão Auch wir sind Iberisch, em inglês We are iberians too, em italiano Anche noi siamo iberici, e de repente foi como um rastilho, ardia por toda a parte em letras vermelhas, pretas, azuis, verdes, amarelas, violetas, um fogo que parecia inextinguível, em neerlandês e flamengo Wij zijn ook Iberiërs, em sueco Vi också är iberiska, em finlandês Me myöskin olemme iberialaisia, em norueguês Vi også er iberer, em dinamarquês Ogsaa vi er iberiske, em grego Eímaste íberoi ki emeís, em frísio Ek Wv Binne Ibeariërs, e também, embora com reconhecível timidez, em polaco My tež jesteśmy iberyjczykami, em búlgaro Nie sachto sme iberiytzi, em húngaro Mi is ibérek vagyunk, em russo Mi toje iberitsi, em romeno Şi noi sîntem iberici, em eslovaco Ai my sme iberčamia. Mas o cúmulo, o auge, o acme, palavra rara que não voltaremos a usar, foi quando nos muros do Vaticano, pelas veneráveis paredes e colunas da basílica, no soco da Pietà de Miguel Ângelo, na cúpula, em enormes letras azuis celestes no chão da Praça de São Pedro, a mesmíssima frase apareceu em latim, Nos quoque iberi sumus, como uma sentença divina no majestático plural, um manetecelfares das novas eras, e o papa, à janela dos seus aposentos, benzia-se de puro espanto, fazia para o espaço o sinal da cruz, inutilmente, que esta tinta é das firmes, dez congregações inteiras não bastarão, armadas de palha-d’aço, lixívia, pedra-pomes e raspadeiras, com reforço de diluentes, vão ter aqui trabalho até ao próximo concílio.
Da noite para o dia toda a Europa apareceu coberta destas inscrições. Aquilo que ao princípio talvez não passasse de um mero e impotente desabafo de sonhador, foi alastrando até tornar-se grito, protesto, manifestação de rua.

José Saramago, in Jangada de Pedra