Porém, se há desses europeus, também há europeus destes. A raça dos inquietos, fermento do diabo, não se extingue facilmente, por mais que se afadiguem os áugures em prognósticos. Ela é a que segue com os olhos o comboio que vai passando e entristece de saudade da viagem que não fará, ela é a que não pode ver um pássaro no céu sem experimentar um apetite de alciónico voo, ela é a que, ao sumir-se um barco no horizonte, arranca da alma um suspiro trémulo, pensou a amada que foi de estarem tão próximos, só ele sabia que é de se achar tão longe. Foi portanto uma dessas inconformes ou desassossegadas pessoas que pela primeira vez ousou escrever as palavras escandalosas, sinal duma perversão evidente, Nous aussi, nous sommes ibériques, escreveu-as num recanto de parede, a medo, como quem, não podendo ainda proclamar o seu desejo não aguenta mais escondê-lo. Por ter sido, como se pode ler, na língua francesa, julgar-se-á que foi em França, é caso para dizer, Pense cada um o que quiser, também podia ter sido na Bélgica ou no Luxemburgo. Esta declaração inauguradora alastrou rapidamente, apareceu nas fachadas dos grandes edifícios, nos frontões, no asfalto das ruas, nos corredores do metropolitano, nas pontes e viadutos, os europeus conservadores protestavam, Estes anarquistas são doidos, é sempre assim, leva-se tudo à conta do anarquismo.Mas a frase saltou fronteiras, e depois de as ter saltado, verificou-se que afinal já aparecera também nos outros países, em alemão Auch wir sind Iberisch, em inglês We are iberians too, em italiano Anche noi siamo iberici, e de repente foi como um rastilho, ardia por toda a parte em letras vermelhas, pretas, azuis, verdes, amarelas, violetas, um fogo que parecia inextinguível, em neerlandês e flamengo Wij zijn ook Iberiërs, em sueco Vi också är iberiska, em finlandês Me myöskin olemme iberialaisia, em norueguês Vi også er iberer, em dinamarquês Ogsaa vi er iberiske, em grego Eímaste íberoi ki emeís, em frísio Ek Wv Binne Ibeariërs, e também, embora com reconhecível timidez, em polaco My tež jesteśmy iberyjczykami, em búlgaro Nie sachto sme iberiytzi, em húngaro Mi is ibérek vagyunk, em russo Mi toje iberitsi, em romeno Şi noi sîntem iberici, em eslovaco Ai my sme iberčamia. Mas o cúmulo, o auge, o acme, palavra rara que não voltaremos a usar, foi quando nos muros do Vaticano, pelas veneráveis paredes e colunas da basílica, no soco da Pietà de Miguel Ângelo, na cúpula, em enormes letras azuis celestes no chão da Praça de São Pedro, a mesmíssima frase apareceu em latim, Nos quoque iberi sumus, como uma sentença divina no majestático plural, um manetecelfares das novas eras, e o papa, à janela dos seus aposentos, benzia-se de puro espanto, fazia para o espaço o sinal da cruz, inutilmente, que esta tinta é das firmes, dez congregações inteiras não bastarão, armadas de palha-d’aço, lixívia, pedra-pomes e raspadeiras, com reforço de diluentes, vão ter aqui trabalho até ao próximo concílio.
Da noite para o dia toda a Europa apareceu coberta destas inscrições. Aquilo que ao princípio talvez não passasse de um mero e impotente desabafo de sonhador, foi alastrando até tornar-se grito, protesto, manifestação de rua.
José Saramago, in Jangada de Pedra
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