Chamaram a um amigo meu, há umas quantas semanas, de “palerma”. Vindo de quem foi (a saber, o meu avô) pode ser considerada uma opinião sincera e mais profunda do que a palavra utilizada, vulgarizada ao ponto de dificilmente poder ser considerada ofensiva, pode deixar transparecer. Sendo ainda para mais pouco habitual no meu avô tal expressão directa de sentimentos deste género, torna-se quase fundamental para quem este texto lê saber a razão. A razão de isto ter sucedido foi o facto do meu amigo não gostar de ler. Para o meu avô, e não para o meu amigo, a leitura é fundamental, a sua inexistência um amargo desapontamento.
Relatei este aparentemente inofensivo acontecimento porque a razão, simples de tão simplificada, deste blog, resulta justamente não só de ler, mas acima de tudo daquilo que se lê. A leitura tem, a meu ver, duas grandes virtudes distintas: por um lado, a virtude talvez mais apreciada e também a mais comum, espicaça como que com fogo o imaginário de cada um; por outro, e é aqui que nós, Os Iberos, entramos, a leitura é o meio privilegiado de informar e obter informação. Lendo o pouco que eu tenho lido de jornais portugueses (4 Públicos…), caiu dentro de mim o globalizante sentimento de que, antes de os ler, o meu mundo era praticamente estagnado. Usando uma comparação provavelmente demasiado ingénua, fiquei com a sensação de que os olhos com que eu via e vejo o mundo tinham parado de ver o lago parado que sempre haviam visto para ver o novo mar, picado, violento e feroz.
A cada letra que lia, a cada notícia que devorava com a ansiedade natural de passar à seguinte, sentia que a minha opinião, os meus sentidos, se alteravam um pouco, sofriam graduais e por vezes imperceptíveis alterações que, ao fim de cada jornal lido, faziam com que as minhas opiniões parecessem novas, nunca antes experimentadas. As minhas, total ou parcialmente, novas opiniões eram por vezes as esperadas, mas noutras vezes eram perfeitamente surpreendentes, sobretudo para mim mesmo. Não é que tenha lido jornais a minha vida toda, foram só 4 Públicos, mas o meu mundo revolucionou-se e acima de tudo, cresceu, explodiu as minhas fronteiras e criou novos horizontes, toscamente delineados por detrás minha profunda ignorância. Nunca é tarde para se ser “um europeu destes”, espero eu e possivelmente vocês. Haja vontade de o ser! Espero também poder adicionar muitos mais jornais ao meu ridículo registo, o que me leva, directamente, aos objectivos do blog.
O mundo que se revolve à nossa volta, à minha e à vossa, faz com que, num momento inesperado, sejamos confrontados com dilemas intrincados, éticas dúbias, às quais, em conjunto ou solitariamente, temos de fazer frente. Tentar percebê-las, quero eu dizer e, se for caso disso, argumentar contra elas, apaixonados mas também sóbrios. Rejeitá-las terminantemente “à custa do anarquismo” não é uma opção para quem se conta entre “estes europeus” que não vivem só no Mundo, fazem-no.
Não esperem poemas, ou romances ou prosas tentando ser belas, embora por vezes “as saudades das viagens que não faremos” nos deixem sedentos da beleza do que ainda não vimos. Esperem, isso sim, sinceridade. Opiniões escritas e expressas na primeira pessoa, sem perguntas, sem interrupções, as letras como que faladas de uma mente para todas as outras. É isso a que me proponho, manter viva nesta geração de europeus “o desejo que não somos capazes de reprimir”, e é também isso que vos peço, leitores e possíveis cronistas (o Mundo não é só meu, claro). À nossa volta o mundo existe, realmente. A consciência, a moral e a opinião andam lado a lado com a ignorância e a apatia. Compete a cada um escolher as virtudes do mundo que prefere.
Espero, sinceramente, ver-vos por cá.
terça-feira, 11 de setembro de 2007
A Razão
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1 comentário:
Gosto muito da ideia deste blog. E como sempre, tens o meu apoio. Já li os dois textos. Prometo contribuir de alguma forma para este sítio, embora de momento esteja um pouco aterefada.
Boa sorte =)
Beijos ****
Catarina Sousa
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