"Só Visto", definido na íntegra como um programa televisivo de Domingo, transmitindo a partir da hora de almoço e destinado, com a sabedoria de quem faz televisão há meio século, a fazer chorar aqueles ou aquelas de lágrima fácil, os nostálgicos e os emotivos, que depressa atravessam a ponte entre o triste e o contente, o miserável e o feliz. Como programa de televisão que é, explicado como foi por esta descrição deveras sucinta mas perspicaz (se não é arrogância dizê-lo), não seria dono de nenhuma característica assinalável, tirando o facto de, pelas características que tem, existir (claramente outras conversas, outras deambulações, sobre as quais dificilmente me vejo a escrever). O que o torna, por ventura ou falta dela, especial, é a mensagem subliminar que transporta, as entrelinhas que, embora o sejam, são expostas com um alarido garrafal à frente dos olhos desprevenidos do ocasional espectador.
Uma mensagem simples e fácil de enxergar, mas que, por um lado remonta aos idos tempos da ditadura, e por outro, nos leva a pensar que talvez este governo, influência mais que directa (e muito menos que perfeita) na RTP, talvez este governo, dizia eu, não seja muito menos ditatorial do que a dita ditadura. Passo a explicar: por mera constatação, de modo algum assídua, mas nunca complacente, é fácil de reparar que grande parte dos programas são dedicados à selecção nacional de futebol, ou à de Rugby, ou ao Francis Obikwelu, ou à Vanessa Fernandes, Rui Silva, selecção nacional de basket, etc... O nome Cristiano Ronaldo é dito tantas vezes que já está a ficar gasto, devido ao uso.
Não quero ser mal interpretado. Grande parte dos desportistas convidados são grandes valores do desporto internacional, dos quais nos podemos orgulhar como modelo de virtude humana que são. Mas surge na minha mente como, de certo modo, ridículo, que se fale das razões pelas quais o seleccionador nacional benzeu um jogador que se tinha lesionado, ou da festa que os jogadores fizeram depois de ganharem ao Azerbaijão e ao Cazaquistão! Esses países mal têm dinheiro para pagar a bola com que jogam e nós fazemos um especial televisivo porque lhes ganhámos!
Televisão é televisão, e a última pessoa a saber fazê-la sou eu, mas o que eu penso disso tudo é simples: o Nacionalismo perdeu-se porque se banalizou o Nacionalismo. Glorificar tudo e mais alguma coisa pelo simples facto desse tudo ou dessa alguma coisa ser português não é ser nacionalista, é ser inconvenientemente extravagante. O Nacionalismo é um bem próprio dum povo, qualquer povo, e não deve ser esbanjado se se quer manter o seu profundo e importante significado.
Se pensarmos bem, todas as influências a que somos sujeitos são muito mais esmagadoras do que aquelas a que os nossos avós eram sujeitos em plena Segunda República. Os meios de difusão de mensagens deste ou doutro género qualquer multiplicaram-se nas últimas décadas vezes incontáveis e numa sociedade democrática exige-se do cidadão uma responsabilidade moral de ser crítico em relação ao valor próprio ou, neste caso, ao daqueles que consideramos próprios. Divulgue-se o desporto, transmita-se muito mais cultura e fale-se da política externa, interna ou assim assim, mas exalte-se aquilo que é de se exaltar, porque o que é certo é que exaltar tudo o que acontece não funciona. Na ditadura de Salazar exaltava-se o que se podia exaltar, não havia assim tanto com que ficar orgulhoso, mas hoje em dia não é assim. Hoje e amanhã é vital reconhecer a verdadeira importância das coisas, ou se não soubermos achar a verdadeira importância, pelo menos a mais verosímil.
Não me considero um português ingrato, muito menos traidor. Não confundam a minha preocupação com desprezo. Sou simplesmente um Europeu alarmado com a banalização do enorme valor histórico dum país extraordinariamente rico em Passado, que é a maior riqueza de todas. Orgulho-me muito de viver num país actual e que hoje, mais do que nunca, pode fazer a diferença no mundo e não o quero ver perdido para um governo que esfrega as mãos de contente enquanto todos pensarmos que o que interessa só a Nossa Senhora do Caravaggio nos pode dar.
Gonçalo Soares
Uma mensagem simples e fácil de enxergar, mas que, por um lado remonta aos idos tempos da ditadura, e por outro, nos leva a pensar que talvez este governo, influência mais que directa (e muito menos que perfeita) na RTP, talvez este governo, dizia eu, não seja muito menos ditatorial do que a dita ditadura. Passo a explicar: por mera constatação, de modo algum assídua, mas nunca complacente, é fácil de reparar que grande parte dos programas são dedicados à selecção nacional de futebol, ou à de Rugby, ou ao Francis Obikwelu, ou à Vanessa Fernandes, Rui Silva, selecção nacional de basket, etc... O nome Cristiano Ronaldo é dito tantas vezes que já está a ficar gasto, devido ao uso.
Não quero ser mal interpretado. Grande parte dos desportistas convidados são grandes valores do desporto internacional, dos quais nos podemos orgulhar como modelo de virtude humana que são. Mas surge na minha mente como, de certo modo, ridículo, que se fale das razões pelas quais o seleccionador nacional benzeu um jogador que se tinha lesionado, ou da festa que os jogadores fizeram depois de ganharem ao Azerbaijão e ao Cazaquistão! Esses países mal têm dinheiro para pagar a bola com que jogam e nós fazemos um especial televisivo porque lhes ganhámos!
Televisão é televisão, e a última pessoa a saber fazê-la sou eu, mas o que eu penso disso tudo é simples: o Nacionalismo perdeu-se porque se banalizou o Nacionalismo. Glorificar tudo e mais alguma coisa pelo simples facto desse tudo ou dessa alguma coisa ser português não é ser nacionalista, é ser inconvenientemente extravagante. O Nacionalismo é um bem próprio dum povo, qualquer povo, e não deve ser esbanjado se se quer manter o seu profundo e importante significado.
Se pensarmos bem, todas as influências a que somos sujeitos são muito mais esmagadoras do que aquelas a que os nossos avós eram sujeitos em plena Segunda República. Os meios de difusão de mensagens deste ou doutro género qualquer multiplicaram-se nas últimas décadas vezes incontáveis e numa sociedade democrática exige-se do cidadão uma responsabilidade moral de ser crítico em relação ao valor próprio ou, neste caso, ao daqueles que consideramos próprios. Divulgue-se o desporto, transmita-se muito mais cultura e fale-se da política externa, interna ou assim assim, mas exalte-se aquilo que é de se exaltar, porque o que é certo é que exaltar tudo o que acontece não funciona. Na ditadura de Salazar exaltava-se o que se podia exaltar, não havia assim tanto com que ficar orgulhoso, mas hoje em dia não é assim. Hoje e amanhã é vital reconhecer a verdadeira importância das coisas, ou se não soubermos achar a verdadeira importância, pelo menos a mais verosímil.
Não me considero um português ingrato, muito menos traidor. Não confundam a minha preocupação com desprezo. Sou simplesmente um Europeu alarmado com a banalização do enorme valor histórico dum país extraordinariamente rico em Passado, que é a maior riqueza de todas. Orgulho-me muito de viver num país actual e que hoje, mais do que nunca, pode fazer a diferença no mundo e não o quero ver perdido para um governo que esfrega as mãos de contente enquanto todos pensarmos que o que interessa só a Nossa Senhora do Caravaggio nos pode dar.
Gonçalo Soares
Sem comentários:
Enviar um comentário